Invisíveis cantos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Via crucis

Drinking tea in London during the Blitz, June 1941.



Sou mulher, negra, gay, prostituta,
miserável, palestina, apedrejada

nas ruas, nos dedos, nas sombras recolhidas
dos olhos úmidos, sem voz

verto especiarias nos lábios enquanto rezo 
sacudo minhas asas de poeira
para embalar o filho morto

dentro da garganta.



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domingo, 8 de junho de 2014

The pleasure






arte- em- almas despidas

vestidas de alma
almas sem vestes
penas na pele.



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sábado, 31 de maio de 2014

Post-it de geladeira

Gabrielle Ray in "Lady Madcap", 1905






sou absolutamente antiga, Renoir
e não lanço fora o amor
( o amor me lança dentro)
não falo francês, não tenho tumblr
e tenho ask do anonimato
mas tenho paixões descaradas
perdoa-me, Renoir
a minha ancestralidade corcunda
perdoa-me as pernas e o mistério
e deita-me na mulher do teu quadro.



toma um vinho comigo?



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sábado, 5 de abril de 2014

Canción para Frida, soy este sal






Quiero ( besar) 
tu 
desamparo.



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sábado, 29 de março de 2014

Coisa que me foi dada, sigilosa







Maria Silêncio, minha gata siamesa é filha do Sossego e neta da Solidão. Intransponíveis olhos azuis silêncio do mar, aquele, o de dentro. No entanto, quando todos se afastam ela vem, silenciosamente. Agarra-me as pernas com o lombo cru de um pêlo alvo e macio. Sem cio, beija-me com um mudo miado e sussurra-me o seu terceiro Nome.




Gata-me.

Pequenas sugestões e receitas do espanto antitédio para senhores e donas de casa durante o carnaval





I.
Pegue um nabo. Coloque duas ou três palavras dentro dele, por exemplo: bastão, ouro, amplidão. Chacoalhe. Você não vai ouvir ruído algum. É normal. Ai ajoelhe-se com o nabo na mão e diga:
“Com o bastão que me foi dado
Com o ouro que me foi tirado
E sem nenhuma amplidão
De conceitos e dados
Quero nascer brasileiro
E poeta.”
Quem te ouvir vai ficar besta.

II.
Colha um pé de couve e dois repolhos. Embrulhe-os. Faça as malas e atravesse a fronteira. Ta na hora.

III.
Pergunte ao seu filhinho se ele quer laranja descascada de tampinha ou de gomo. Se ele disser que quer laranja descascada de tampinha, diga que um menino bem educado sempre escolhe a de gomo. Se ele começar a chorar, chupe você a laranja. De tampinha, naturalmente.

IV.
Enfeite a mesa com flores. Compre um peru. Feche as crianças no banheiro. Antes de começar a ceia, convide seu marido para dançar ao redor da mesa (não mexa com o Peru). Inopinadamente pergunte se ele gosta de trufas. Se ele disser que sim, gargalhe algum tempo atrás da porta e diga que “trufas não tem não, amorzinho”.

V.
Compre manteiga. Passe-a nos dedos (esqueça Marlon Brando). Chupe-os. E diga em tom de oração: Que vida solitária, meu Deus! (Contenha-se).

VI.
Compre uma língua de tucano (é uma umbelífera), uma língua de vaca (Chaptalia nutans é seu nome cientifico), um lírio branco (Lilium candidum), dois caquis (não é cáqui, não vá comprar o brim da cor dos caquis), ferva durante cinco minutos. Depois jogue fora, olhando para o alto. É uma simpatia para você não dormir.

VII.
Corte um saco em pequenos pedaços. Um de estopa, evidente. Embrulhe vários ovos, um por um, em cada pequeno pedaço de estopa. Pinte caras descarnadas, dentes pontudos e beiços vermelhos na cara dos ovos (sempre esses de galinha ou de pato, é desses que eu estou falando). Quando alguma das tuas crianças começar a pedir aquelas coisas caríssimas e imbecis que são sugeridas na televisão, cubra-se de negro a noite, use tintas fosforescentes para ressaltar a cara dos ovos (aqueles) e quebre-os um a um nas pequeninas cabeças dizendo com voz rouca: parem de pedir coisas impossíveis a sua mãe, seus canalhas!

VIII.
(Se você for PhD, leia até o fim. Se não, pule esta).
Faca um buque de orelhas. É fácil. Peça apenas uma a cada um de seus dez amigos íntimos. Diga-lhes que é para uma causa nobre. Se perguntarem qual causa (não confundir com Cáucaso, é outra coisa), diga que você precisa mandar o buque para tua velha e querida preceptora inglesa (quando você tinha quinze anos, lembra-se?), que arrancou as tuas duas porque você insistiu inquebrantável durante doze horas seguidas que aquela primeira frase de Marco Antonio para o povão era, na “tua” tradução, “Emprestai-me vossas orelhas”. Todos concordarão, acredite, com o teu pedido. Ainda mais porque todo mundo sabe que “Lend me your ears” quer dizer isso mesmo.

IX.
Se você quer se matar porque o país está podre, e você quase, pegue uma pedrinha de canfora e uma lata de caviar e coloque ao lado seu revólver. Em seguida, coloque a pedrinha de cânfora debaixo da língua e olhe fixamente para a lata de caviar. Só então engatilhe o revólver. (É bom partir com olorosas e elegantes lembranças. Atenção: não de um tiro na boca porque a pedrinha de canfora se estilhaça)


Hilda, magnífica Hist


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sexta-feira, 28 de março de 2014

Chilrear



coisinha estranha era a voz fininha
daquela mulher inteira
ninguém entendia, tão fininha
e tão inteira
o que ninguém sabia é quando havia
finura tão fina
os pássaros voavam e os peixes escapavam
dos prados, das redes, dos cais
das mãos dos homens
coisinha estranha era a voz fininha
daquela mulher inteira
os cabelos não combinavam
nem o recorte do queixo
nem o caminhar
todo mundo estranhava o tamanho sonso
e a finura da voz tão fininha
sirene de ambulância, artista mambembe
tesão do talvez, salta a língua
ambulante, sonâmbula, proverbial
estridente e fininha

mas consolava.





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O desconexo me elucida. Sinto um prazer de sábado quando sinto o aroma da loucura. Sei que não é fácil. Sei. Às vezes eu queria não saber e ter a benção da lucidez. No entanto eis-me aqui, forjada, leoa, musa de fogo. Ouro, olhar, branco, bracelete, unha vermelha.