Invisíveis cantos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Amor acontecendo

Passo a passo




                                                                   
                                                                                 Dos relatos I


A felicidade entrou pelo portão sem se quer tocar dimdom e sentou ao meu lado. Tão perto que entra dentro da minha respiração. Quando o dia troveja e tempestade anuncia, ela pula à minha frente fazendo caretas, micagenzinhas, essas coisas que causam sorrisos de amor. Ela mora num buraquinho na segunda porta da cozinha porque é simpática e não fica anunciando o mundo mágico cheio de plantinhas lá em casa. Ela toma banho comigo e deita ao meu lado quando vou dormir.




Dos relatos II


Nesse jardim mora também um menino-vagalume que foi buscar pólen em outro cercado, foi pousar sua luz por lá também. Logo ele volta porque as flores continuam dele. Van Gogh sai do quadro e entrega um lírio nas mãos do menino.




Dos relatos III


Há isso de extraordinário no mundo.





.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Menina bonita


Para a minha filha



Amadeo Modigliani in Jeanne


 

Os ponteiros dando voltas no relógio, passarinho cantando no fio. Ela nem percebe. Laços, sorrisos e vontades. Ela se descobre. A vida vindo, a vida vindo tão rápida e intensa nas trancinhas dos seus cabelos que cresceram. E ela nem viu. A menina está indo para o lugar de todas as meninas. Ela indo. O relógio vai dizendo:' ela já volta, ela já volta...'. Ela não volta. Quando se vai pra terra das meninas só se volta em solidão que só ela sabe, e toca. Destino de mulher.


Coma





Eu não sei escrever. Atrapalho-me toda na saliva da língua portuguesa. Sem destrezas portanto rabisco papéis de pão sobre a mesa. Nada de mais, só farelos. Sei que nunca vou alcançar o entendimento [e ninguém ousa dizer, xiu, li-te-ra-tu-ra dos homens] das grandes poesias. Mas gosto de vê-las daqui do meu cantinho, só olhar e sentir dentro do meu tamanho. Meus recados em papéis de pão, às vezes entrego, noutras, amasso e jogo fora. Quem iria ler tais linhas balbuciadas coração. Coisas minhas que insisto em repartir, o pão.



Pão é amor entre estranhos, obrigada Lispector.

Aborto

Ray Caesar



E naquele dia o seu filho nasceu para dentro. E quanto mais o tempo passava, mais o menino crescia, esbarrando no seu coração.


.Rita Apoena

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Imperativo

Tim Walker



Fique linda
Seja feliz
Aja agora
Limpa
Cuida
Chora depois

Morra.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Que venha o Rei

Salvador Dali
O decorrer do tempo
só me mostra fragmentos
de uma vida escorrida em
a
 m
  p
   u
    l
     h
      e
     t
   a

Os mesmos grãos
formando a mesma
p

i


l


h





a




de mim.




Dos anseios pela Terra Prometida.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Odes mínimas da nudez



Ainda tenho medos. Mas, estranhamente, agora tenho calma. Talvez nem seja nada disso e os medos mesmo não são das coisas prontas mas sim daquilo tudo que não consegui provar. Carne de rã nem é tão ruim assim. Nem olhar os animais nas jaulas sujas tem me deixado tão atônita, consegui ver através das grades a sina. Como um signo na testa. Esperança inútil como se um animal enlouquecido cantasse liberdade fora da cadeia, alimentar. Tão inintendível quanto braile em dedos cegos. Eu te-me entendo. Tanto que posso dizer-vidas. Eu tenho vivido, então, a calma. E a calmaria é um mar que está no contorno forte das ondas do seus ombros.

E se olharem de perto verão que a pele veste pele.

Nus ombros.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Retrato de um menino artista

Para o meu filho



Na cabeça do menino uma expressão voa feito insetos.
E assim nasce o Tempo. Outro vôo rasante de vespas coloridas e nasce o Arco-íris.
Na cabeça do menino uma formiga cumprimenta a outra formando uma alavanca enquanto as nuvens estão tingindo o azul do céu com cor de pipoca. Uma pipoca sobre a outra e acontece a Via Láctea.
Só na cabeça do menino os pães-de-minutos são saboreados num domingo interminável.

- Gosto tanto quando o vento me leva nas idéias, mãe.
- Eu sei, meu amor. Você nasceu para desempoeirar estrelas.


Menino-vagalume.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Da poesia II






Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. Por que
havemos de ser unicamente
humanos, limitados em chorar?
Não encontro caminhos fáceis
de andar. Meu rosto vário
desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar
E por isso levito.
É bom deixar
Um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
Nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
A sombra é que vai devagar.
.Cecília Meireles

Ela está apaixonada

- Então, minha querida Amélie, não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida.  Se deixar passar essa chance, com o tempo seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto.  Então, vá em frente, pelo amor de Deus.
.O Fabuloso Destino de Amélie Poulain







Pode até parecer o contrário mas sou de uma teimosia do tempo do meu avô. Embora minha compreensão seja de antiga ancestralidade. Muitas vezes entro em Sísifo quando tento seguir adiante. Ah, eu gosto de pedras quentes, mas a leveza dos passáros me comove. Na verdade eu não consigo descansar a sola dos meus pés. Sigo. Deus permita que a pele cicatrizada não roube a minha sensibilidade. Pois só com ela adentro em mim mesma. Sou quase do tamanho do Amor. E não sou herege por afirmar isso. Tem gente que acha que sou seca. Eu entendo que é bem difícil perceber que em meus frascos está tudo aquilo que rejeito. Vidro é frio quando não está derretido no fogo. Bata na porta com mãos quentes. Sou mole. Meu coração é doce, Amélie. 
Tem gosto de maçã-do-amor.

.

Lê, minski




...

...

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior; que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.

.Gabriel García Marquez

Líquida




Henri Matisse





- Ela é assim! Pronto.
- Mas assim como? Explica!
- Ela é assim um mix de tudo que se possa imaginar dentro de uma grande capacidade de apenas não ser nada em definitivo. Ela é aquilo que não consegue se encaixar em moldes pré-existentes, parece que ninguém nunca foi antes dela. Ela se incomoda com isso, às vezes, muito. Ela é cheia de sentimentos, parece que suas experiências se manifestam é no dorso do seu colo, e quase sempre, de vez em quando, tudo isso pesa. Mas não tem modo, não existe maneira que a faça ser diferente. E ainda, graças a Deus, ela é diferente. Algo que pesa e que tem o dom da leveza, algo que chora e que se manifesta em sorrisos, algo de forte, mas que se desmancha quando encontra a água.


.Clarice Lispector

Da poesia

Eu quando olho nos olhos,
Sei quando uma pessoa esta por dentro, ou esta por fora.
Quem está por fora, não segura um olhar que demora.
.Leminski

Solidão nos cabelos

Gustav Klimt


Eu só queria que você soubesse que quando estou quieta não estou calada e não te amo menos por isso. Eu só queria.
Eu só queria que você soubesse que o escuro, às vezes, me aclara a alma e não te amo menos por isso. Eu só.
Eu só queria que você soubesse que a dor no peito em nó, as mãos do tempo cuidará em fios macios e não te amo menos por isso.
Eu.



Eu só queria que você soubesse que minha solidão precisa de você ao lado.

Ploc!


Heinrich Campendonk



Gosto do gosto bom da voz que entra em mim. O som me conduz.
Porque é vibrando que tateio a pele fina. Sinto o aroma.
Como se tocar fosse explosão de veias e o sangue corresse em direção ao rio. Eu rio no mar.
Tanto tanta. Tanto coração senti no peito.
Sentir afeto. Efeito contagiante. Ante. Feito. Afeito.
Medonho quem não sente ou, esconde.
Borburinhos.
Minhas bolhas de sabão sempre espocam.

Sinto muito.

terça-feira, 13 de julho de 2010

De felicidade e de conjura


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Marc Chagal



A vida se mostra certa mais uma vez em minhas linhas tortas. E o que posso dizer é que estou em estado de felicidade. Tanto quanto uma criança é feliz brincando a roda. Tanto quanto uma preguiça é plena dormindo a planta favorita. Posso enfim descansar. Poucas pessoas entendem do que estou tentando dizer. Mas as que tocam minha palavra em fios de sentimentos ousam suspirar meu sorriso. Meu sorriso em você. Há tanto tempo você vinha comigo, há tanto tempo você do meu lado me olhava. Meus olhos, que hoje, encantados vão, nos teus. Agradeço aos cílios teus que delicadamente me piscaram beijos. Eu te beijo em cílios também, amor meu. Sei que estou tentando colocar aqui o in-indizível. E, como já disse em precisão, as palavras estão no céu. É muito difícil suportar essa felicidade toda, não é? Esses medos todos nos salvando de explodir. Felicidade explode peito e, o nosso, está tão vivo... tão vivo. Nosso adeus à morte. Nunca mais morreremos noites. Estamos juntos manhãs. Teu cheiro em mim. Minha boca em tua língua-escrita. Teu sono em meus olhos.  Eu preciso de você sem exigências assim como aceito em você o que me é dado. Espaços nossos tomados por nós. Só nós. O eu e você inteiro. Penso que é nessa palavra exata que quis chegar: inteiro. Ei, coração, teu compasso está no tom da minha mais linda canção de amor. Deixa tocar.
Eu me sinto, às vezes, tão forte que queria me debruçar sobre teu peito enquanto o mundo me comove. E assim posso buscar no céu todas aquelas palavras e te dizer em olhar, no silêncio que é como você me ouve.
Também é preciso que eu fale da voz, da tua. Você me fala  em calma, me diz  em tranquilidade e eu deito a cabeça no teu ombro para olhar o horizonte, meu mar de dentro apaziguado [paz na água], e tudo passa enquanto estou assim em você, tudo passa. E quando você desliza os dedos nos meus cabelos em cuidados, sinto meu corpo todo voltado para as tuas mãos numa constante e imensa força de paz. Você, a minha paz. Você, o meu descanso. Você, o amor que sonhei para mim.

Vem, não demora, deita no colo meu.







quarta-feira, 2 de junho de 2010

Eugene não olha para trás

-Atrás dos olhos das meninas sérias-
Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão, por
injunções muito mais sérias, lustrar pecados que
jamais repousam?

Ana Cristina César 


                                             Ray Caesar




Eugene era dessas meninas que sobem em árvores.  Do galho mais alto mirava certeira um cuspe ácido. Caústica. Gostava de babar. Vestia sempre as mesmas meias. 'É para dar sorte', repetia hermeticamente. Dificilmente Eugene chorava, certa vez cortou o dedo num prego enferrujado e quase o tétano salvou sua vida suja. Eugene era por um triz. Um viés das meninices. Boca-latrina, não diga o nome. Porque sibilam os versos mais erráticos e porcos da sua vida inconstante numa sevícia própria. Oh, Eugene. Sem medos, sem fechos. Miudezas carnais, antes das cinzas. Eugene tinha meias que cheiravam a sexo. E do alto do galho gozava mansa. Vaca que sabe lamber.



[desta crueldade intensa de santa que te toma as duas
mãos.]

terça-feira, 27 de abril de 2010

A Proteção Pungente

 



Ela não podia olhar para seu pai quando ele tinha uma alegria. Porque ele, o forte e amargo, ficava nessas horas todo inocente. E tão desarmado. Oh, Deus, ele esquecia que era mortal. E obrigava ela, uma criança, a arcar com o peso da responsabilidade de saber que os nossos prazeres mais ingênuos e mais animais também morrem. Nesses instantes em que ele esquecia que ia morrer, ele a tornava a Pietà, a mãe do homem.


Clarice Minha Flor-de-Lispector

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Lápis Lazúli

Jorge Castillo



Sílica em cálcio, ossos
Extremum só e aluminium
Zinco cobalta-me de enxofre
De todos os seus azuis cobri

Lapidando intuições

Envolta de azul-real, grande mar
Parcialmente em inclusões
Douradas e castigadas
Opacas, até a cintura

Confundindo escavações

Busco-te céu azul-escuro
Escuro escuro escuro
Gregos, romanos e índigos
Vastíssimo blue, de partidas

Abrindo lentos portões

Pedra bruta, lapidada
Esfera, ovo, pingente
Obelisco, pirâmide, cordão
Tu és Vênus

Argamassa-me em pó, Azul.

Faz de conta

Acenda num jardim um incenso de canela,
escolha uma flor e, segurando sempre o incenso, faça
com que as cinzas caiam formando um círculo em volta
da flor escolhida.






Era uma vez uma princesinha dourada e triste. Certo dia, a douradinha,
resolveu deixar o castillo de alusiones e sair pela floresta. Se
setembro chegar no meio do caminho colho uma flor, pensou ela. Terra
pisando vento. Nos cabelos trazia pétalas que tinham sido tecidas
pelas suas próprias mãozinhas finas toda vez que chorava, lágrima por
lágrima. Tocava estrelas fiando de ouro todas as sensações que a noite
trazia na sua roca escura. Meu amor, o mundo é assim. O destino quer
se cumprir. Ela andava, pezinhos descalços. Com todo cuidado, meu
amor. Ela carregava um cesto de pérolas.
Na floresta os sons possuiam uma equidão diferente, seus ouvidinhos
buscavam aflitos como brotos a tessitura do evolar dos cantos mágicos.
Magia de elfos, faunos, ninfas e sátiros brincando Dionísio.

- Dance!

Ela obedeceu. Não porque quisesse mas também pela urgência de tocar,
aquele som. Homem-bode em flauta, o que está sentado à esquerda. O
fauno meu, enfim um rei do Lácio. Não mais parou de rodar.

-Dance!

Ela sorria em seu vestido de luz espectral sorvida luz da manhã.
Diritambos em Teu nome. Tudo o que canta é sagrado, meu amor. Só um
fauna toca versos proféticos pois tem a idade do ouro. A princesinha
brincou os sons mágicos e seguiu, ainda era cedo demais para morrer,
disse, beijando delicademente um outro sapo, dos muitos que lhe
choraram. O caminho era úmido tal qual húmus encharcado. Sentiu riacho
e um cheiro de lírios de cachoeira. A margem do rio lhe chamava os
passos, da terceira para a foz. E amando uma pedra, arrepiou como flor
soerguida no corpo, estava uma fada. Elas se viram. Princesa e fada,
amando-se. De súbito como imã. Pedra, cascalho, cascos, jaboti. Porque
primeiro é o duro da força, meu amor. E a princesinha quis beijá-la.
E a história se entrelaça aqui, nesse ponto exato do beijo.


 Faz de conta que tudo que ela tinha não era de faz de conta.

terça-feira, 23 de março de 2010

Ver melho[r]


''(...)Talvez vocês esperem que eu lamente 'o quanto se sofre' vivendo com um homem como Diego. Mas não creio que as margens sofram por deixar o rio correr, ou a terra por causa da chuva, (..) em minha opnião, tudo tem uma compensação mútua. Meu papel difícil e obscuro, de ser alíada de um ser extraordinário, tem a mesma recompensa de um ponto verde numa grande quantidade de vermelho: uma recompensa equilibrada. A dor e a felicidade que dominam a vida, nesta sociedade realmente pobre em que vivo, não são minhas. Quando sou parcial e os atos dos outros me ferem, inclusive os de Diego Rivera, responsabilizo-me por minha incapacidade de ver com clareza; mas, se não for (parcial), terei de admitir que é natural que as células vermelhas do sangue combatam as brancas sem nenhuma consideração, e que este processo traduz-se simplesmente em saúde."

Frida Kahlo, em Retrato de Diego.




É, eu sei. Glória estranha do corpo. Mas, é glória.
Xiu, Frida, que você sabe vermelho demais. 

sexta-feira, 19 de março de 2010

Sou livre



A minha confissão hoje é um agradecimento.
Quero muito agradecer aos meus pais pela forma como me criaram, de como me ensinaram a tocar os dedos longos do mundo com minhas mãos pequenas. Hoje senti muito orgulho do que Sou. Eu me orgulho pela minha incorruptividade, pela minha lealdade, pela meu equilibrio baseado em forte base emocional, pelos meus princípios, pelo que consigo doar e pelo que consigo receber, pelas trocas e aprendizados, pela sustentabilidade dos meus atos, das minhas palavras, pelos reconhecimentos dos meus erros, pela alegria dos meus acertos. Por me ensinarem a rezar, por me tirarem a venda, por me dizerem os 'nãos' mais fortes em Amor que existe, por dizerem ' sim, vai, minha filha, sim'. Por enfrentar o medo do escuro. Por eu saber voltar atrás, por subir andar pra frente, por entender perdão, por sentir-valor não só o corpo mas tocar Coração.

Obrigada.



Aos meus pais.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O primeiro lírio



Vou falar de mim. Sou antiga. E é preciso que se saiba que quando eu falar serão palavras lentas e inteiras. Nasci sabendo do meu caminho útero-âmnion-ânima. Tomei goles do líquido antes do fôlego inicial. Chovia e o hospital estava sem luz, geradores não conseguiram manter por muito tempo o controle vital para se ver. Têm coisas que só se captam no breu, pois escapam à luz, talvez seja por isso que escapulo e consigo vagar por campos distantes, os de dentro. É necessária a cegueira para se ver lírios. De lírios. Nasci com o rosto nu e à luz de velas. Logo, as velas chegaram em minha vida antiga. Tal qual a Taverna para Azevedo. Chovia muito e as águas amendontraram minha mãe. Talvez seja por isso que o mar aberto me amedontra tanto. Água funda e parada me congela o sangue em medo. Confidências. Eu vejo o que está ao fundo rocha-vulcânica, o núcleo neutro de onde está o húmus. Os campos necessitam de águas. Nasci na tempestade entendendo que as paradas cardios respiratórias de minha mãe me levariam ao sopro. Sopro palavra que descubro enfim, na respiração das falas, que hoje desde sempre, me salvam. Entendi-me humana nesse ponto. E entendi-me nos campos. Alheios de tão meus. Certa feita fiz um estudo astral e disseram meu umbigo ser oito, o número. Logo pensei no infinito mas era sofrimento, o materno. Um lírio para minha mãe. Sem surpresas, segui. Sempre esquiva, por saber sentir. Sensibilidade num mundo bruto é peso. Lírios que se penduram nas pedras de cachoeiras escapulam peso de pedreira. Meu olhar fecha e abre sem ser o piscar dos olhos, e sim silêncio.  Risos. Meu silêncio é abusado, ele ri, brinca e até o meu irritável é querido. Gostam de mim. Fato. Gostam. A insuportável adorável, paradoxalmente. A insuportabilidade vem do fechar e abrir nos intervalos da vida, intervalos que podem durar meses tanto quanto podem durar fragmentos de segundos. Mas são perceptíveis. Incomodam e apaixonam, não respectivamente. Os lírios. Um ou outro, raros os dois. Mas amizade é rara e isso me deixa comovida. Cresci sorrindo e sabendo a mais do esconde-esconde e mãe-da-rua, adolesci mundo, o dos Anjos, Poe, Pessoa, Clarice, Cecília, poesia. Então foi aí. [pausa]. A Poesia. Foi através da Poesia que entendi por onde meu intervalo do abrir fechar vagava campos. Descobri-me olho nos campos nus e percebi porque incomodava e porque apaixonava pessoas. Era o nu dos campos alheios que consigo vagar. Os campos delicados, os peitos nus. Lírios e levezas no peito meu. Sensibilidade peso. Fresta de rochedo, terra, aberta em mim. O meu atalho. Peso. Existe a raiva, é o preço, de perceberem pés descalços colhedores em teus campos sacros dolores escuros, inférteis. Estes que eu, os da minha espécie adentram. É inevitável. Mas nos campos fechados também existem  árvores com sombras frescas. Pertenço enfim, dentro da minha condição humana.

Sou uma antiga camponesa colhedora de lírios.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Malabares

 




Curvas de lábios, testas. Queixos que tremem, enquanto unhas incríveis em arabescos suplicam. Desbobram. Braceletes em ouro. Prata. Dores bronze. Saltos em torno das mesas, fartas. Alongam-se filhos músculos, ácido nucléico. Leito. Resistência ao macho, partes de baixo. Calam-se colos. Pódios. Exaustas e plenas helenas, como quem malabares para ver Deus. 

Mulheres.

domingo, 7 de março de 2010

A pêlo

"ninguém enriquece com a literatura se ao mesmo tempo não for capaz de chupar um pêssego aproveitando a mão livre para levá-lo a boca, se não fizer amor entre duas páginas, se não se debruçar na janela para saber que durante o último mês cinqüenta crianças morreram queimadas na região se Saigon, e que em Biafra os nigerianos ajudados pelo nobilíssimo Reino Unido degolaram todos os pacientes de um hospital; será preciso repetir, professor Papalino Zeta, que a literatura não é um terreno privilegiado no sentido escapista que tanto convém e adorna? Biafra e o erotismo, a chuva de napalm e os Jogos Venezianos de Lutoslawski: a poesia continua sendo a melhor possibilidade humana de realizar um encontro que ninguém descreveu melhor que Lautréamont e que pode fazer do homem o laboratório central de onde algum dia sairá o definitivamente humano, a menos que antes disso todos nós tenhamos ido para a casa do caralho."

Notícias do mês de maio, Julio Cortázar








Continuo sendo estranha, esquiva. Mas assim é melhor. Não ser linear sendo, dentro das pequenas possibilidades humanas. [ pausa] Eu não consigo explicar [ /pausa].  Lamba minhas partes, oh cachorro.
Os números entre parênteses a fim de cada ponto indicam os vórtices de onde extraí as entrelinhas do meu texto tentando me explicar em sílabas tortas [Pórtico]. Meu mais doce nosce te ipsum. Enquanto Cortázar me manda dormir, sabendo que sou [só]. Sonho.

Yeah, c'mon

 


Ele me música.



The face in the mirror won't stop
The girl in the window won't drop





Diz posição



Há que se ter. Posição é importante. O que se diz também. Nem sempre
estamos dispostos para o Amor. Não é só Corpo que falo, é de postura,
d'alma [carpideira portuguesa mulheres de atenas].
Mirem-se
Ex templos
Não se ajoelhar nem tão pouco implorar. Implosão. Mas se dobrar e se
encantar nos poros. Chão.
Viver em posição correta. Amar com a espinha ereta. As evoluções do
teu alívio, debruçadas em meu sufoco frio. Sou oca se não tenho em mim
tuas partes postas no tamanho exato do meu dizer.
Diz
posição.


Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
(Fagulhas – Ana C.)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O terceiro Nome


Quando Alana e Osíris me olham não posso queixar-me da menor
dissimulação, da menor duplicidade. Olham-me de frente, Alana sua luz
azul e Osíris seu raio verde. Também entre eles olham-se assim, Alana
acariciando o lombo negro de Osíris, que levanta o focinho do prato de
leite e mia satisfeito, mulher e gato conhecendo-se desde planos que
me escapam, que minhas carícias não conseguem ultrapassar. Faz tempo
que renunciei a qualquer domínio sobre Osíris, somos bons amigos a
partir de uma distância infranqueável; mas Alana é minha mulher e a
distância entre nós é outra, algo que ela parece não sentir mas que se
interpõe em minha felicidade quando Alana me olha, quando me olha de
frente que nem Osíris e me sorri ou me fala sem a menor reserva,
entregando-se em cada gesto e cada coisa como entrega-se no amor, ali
onde todo seu corpo é como seus olhos, uma entrega absoluta, uma
reciprocidade ininterrompida.

Orientácion de los Gatos, Júlio Cortázar







Essa é uma declaração de amor aos gatos. Se suporta sustentar a troca
de olhares com um felino, leia-me. Tenho uma forte atração pela mudez,
por tudo que não se diz, pelo imenso esforço da voz. Pelo
enigma, ex finge. Por isso vou falar de gatos. Quem me impulsionou ao
vital foi um poema de T.S.Eliot em The Naming of Cats. Tanto quanto
possa ser implícito um nome em três. Um gato sempre tem três nomes. O
primeiro nome é aquele que é dado como regra, protocolar. 'Andrei
Álvarus', 'Amadeo Modigliani', Jeanne Hebutèrne', 'Solidão' à 'Gata
Rosana de Calcutá'. É o nome do ofício em pompa e circunstância, da
ânsia humana tão bonita quanto tola.O segundo nome já é o que vem
antes do primeiro, é o de fato. Neologismos, metalinguagem, metáforas
afora que docilizam o léxico requintado do primeiro. É o nome bobo,
portanto o que vem do coração. 'Chinim', 'Titinho', 'Chiquinha' e
'Zóinho'. Todos infalíveis e retornáveis ao plasma do nome, àquele que
vem das veias. No entanto o terceiro nome, ah. O terceiro. Agora que
entro no sagrado, peço perdão. O que vai ser dito e transposto em
escrita é o desespero de um nome ocupando muito mais intervalos do que
um olhar felino. Aquele, o que não se sustenta. É nesse momento que
lambo meu pêlo como um gato que acabou de brincar um rato. O que
devora o terceiro nome? Arrepio-me toda.
“… ninguém jamais imaginaria
O nome que ninguém consegue descobrir
Que só o gato sabe, e a ninguém confessa.
Quando o vires em meditação absorta
A razão, eu te digo, é sempre essa
Sua mente está entregue ao profundo
deleite de saber que é único no mundo.
E ele pensa, e pensa, e pensa em seu nome
Seu afável, inefável e inenefável
insondável, profundo, singular e puro Nome.”



O próprio Nome, o final, aquele que não se descreve.
Então animalizo-me, para tentar, afã
Penso o lombo, tomo posse
Espinha, dorso, arqueia-me
Das entregas
A mulher e o gato
E o que faço por instinto não se pode dizer.




[Com dedicatória para Rosana, a gata-saci que vive pelos meus cantos].








O poema na íntegra enquanto junto pedaços meus:

The Naming of Cats, da autoria de T.S.Eliot.

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn’t just one of your holiday games;
You may think at first I’m as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there’s the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, or George or Bill Bailey -
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter -
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that’s particular,
A name that’s peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum -
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there’s still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover -
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name .

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ao te alcançar



Vejo em tua pele um poema
De palavras únicas de mulheres nuas
Suas

Percebo o tráfego e as garras
Das vontades e versos
Gana de entender um a um

E pronunciar as tuas sílabas

Três alfabetos perdi, um filete
De sangue
Tantos poemas em ti

Que para esquecer amo outros
E entrego-te calma, num sopro do vento
Todos os meus oleandros à noite


Porque tu sabes, Páris, que é de poesia o meu açoite.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Des folha-me

Não, não há razão de espanto: o milagre existe: o milagre é uma
sensação. Sensação de quê? de milagre. Milagre é uma atitude assim
como o girassol vira lentamente sua abundante corola para o sol.
O milagre é a simplicidade última de existir. O milagre é o riquíssimo
girassol se explodir de caule, corola e raiz - e ser apenas uma semente.
Semente que contém o futuro.

Clarice Lispector
[Um sopro de vida]



Klimt





No meio da fuga você aconteceu. E foi se tornando o meu lado esquerdo
sem mesmo o meu direito entender. Eu, que sempre compreendi tudo e
muito mais, fiz olhos poucos e ouvidos moucos. Talvez por sentir
quieta-água-profunda. Pela primeira vez, deixei. Tudo aos pouquinhos,
você me aconteceu aos pouquinhos. Fui pensando em você apesar de não
sentir tua falta. De me gostar intacta, cômoda sensação de fim. Nem
tua presença atrapalhada preenchia o meu nada insubstituível e
chato. Mas você foi ficando. O alívio foi justamente perceber que eu
não queria o placebo e, nem muito menos nenhuma antiga máquina de guerra que
atirasse longe meus projécteis inúteis. Você foi juntando meus baixos
metais. Eu deixei. E sabia que deixava, o alívio. Ando bem, apesar do
trancos dos meus saltos nos teus buracos frios. Dos teus problemas
sérios. Você foi acontecendo, rotina lenta, ansiedade em
beijos-borboletas. Ainda bem. Muito bem.


- O domingo tá acabando.
- Melhor assim.
- Gosto de fumar meu último cigarro do maço num domingo.
- Isso é mania. Velho que tem tique e mania.
- Ah, você gosta dos meus cabelos grisalhos.
- Gosto. Mas essa sensação não me deixa.
- O quê?
( pausa-caminho transverso)
- Só estou cansada.
- Vamos comer pipoca doce de arrozinho?



Aos pouquinhos.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Dois mil e nove



Esse ano merece uma paz, agem. Um rito, a Deus. Como dizer de coisas que não se dizem.
Ela se encorajava pensativa, pois coragem era seu nome. Tinha
entendido isso em uma manhã de neblina úmida de outras terras, onde
ela perfumou como uma flor é feita. O processo de viver é feito de
erros que te conduz ao vazio, te conduz ao vazio e te conduz ao vazio.
Susto. É no vazio que ela se deparou com o que É viver (não
comparável). Estado de sítio, revelação. O vazio conseguiu numa fração
de segundos que durou exatamente seis meses, tudo o que ela sempre
quis possuir: o seu modo de ser. Ano destruidor. Derrubou as suas
antigas torres gêmeas.
Ela então, seguiu. Era cedo demais para sentir tanto.


'Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho sempre a boiar
E outro que agita'



E foi assim que ela suportou aprender a
ser amada e amou. Em dois mil e dez verdades.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Carta para dois olhos



Existem em todo o homem, a todo o momento, duas postulações
simultâneas, uma a Deus, outra a Satanás. A invocação a Deus, ou
espiritualidade, é um desejo de elevar-se; aquela a Satanás, ou
animalidade, é uma alegria de precipitar-se no abismo.

Charles Baudelaire







Essa é uma carta de amor. Limpe todas as energias drummondianas da tua
aura e me leia. Ou ouça. O que vou contar é sobre um olho e mais um,
formando dois. Dois olhos que enxergam juntos tudo que pode ser
visto. E também aquilo que não se vê. Dois olhos, um de cada um.
Entendem? Não é tão fácil explicar aquilo que muito pouca gente tem,
sequer sonha possuir, pela própria imagem subjetiva imposta pelas
telas podres da mídia explicando o amor de novela das oito.
Bem  mas aí é papo para jornalista que precisa ascender logo e descolar um emprego engessado na globo. Sempre achei que somente com nossos olhos podíamos sentir o mundo e que bastava, e
que era lindo. Mas não, o mundo visto pela ótica tua-minha é maior.
Quando nossos únicos dois olhos vêem, o mundo se faz intenso demais como
uma café forte que abraça. É isso, nos sentimos abraçados pelo amor. O
amor nos cobre quando nossos dois olhos estão no mesmo rosto. Quando
você tem dois olhos, você pode ver a chuva cair nas folhas do limoeiro
à tarde, em uma rede. Só com esses dois olhos chove. Você que já foi
chovido molha o que eu digo agora.
Quando você tem dois olhos você
pode ter dois quartos que depois se tornam um. E nesse quarto, com
seus dois olhos você chora Modigliani caindo o pano de Jeanne, nua de
olhos-alma-toda, até mesmo a epifania de Utrille ao terminar a obra
e, aí rirmos depois das lágrimas. Dos nossos dois olhos. Quando você
tem dois olhos você pode ver além das grades da jaula, pode então ver
o que não se vê, olhando o olhar estático de tão humano dos macacos num zoológico de
um momento ilógico ( e porque?) da tua vidinha de domingo oco. Quando
você tem dois olhos você se transfigura em claricecortazar na cama, no
quarto de quatro, tal qual Jesus no Monte das Oliveiras transfigurando
Moisés e Elias para um bando de apóstolos cegos. E por tocar em
cegueira vou também ao desespero de quando se tem dois voltar ao um.
Você pode gritar pupilas novas, buscar enlouquecido no teu baú
sujo-casa-escura de memórias outro olho. O outro olho nunca está lá, nunca esteve,
porque ele só acontece uma vez. Deprimente essa vasculhação no
passado pensando: ' sim, eu tinha um outro aqui que me servia,
onde-foi-parar?' De repente você foca para frente e a luz-breu não te
mostra nada. Sim, o novo é nada para quem tem um olho arrancado.
Quando se arranca um olho de dois se lesa o nervo e, qualquer babaca
que tem um curso merda-superior-incompleto sabe: um nervo-olho-dois
destruido nunca mais recupera a visão-dois. Eu tinha subido a montanha
quando um olho me foi arrebatado. Arrebatamento me fez subir tal feito
a expressão, tinha morri do subir montanha. O pico mais alto do
estado. Deus, eu te quero tanto. Não me achem insuportável se fico dizendo
essas coisas e sei que-li-lispector-demais. Não existe esperança verde
para quem dois olhos teve e não soube. O que quero contar é que já
tive dois olhos.

Hoje, só me resta um.

Um látego

Me dá a tua boca para eu dizer:
'Vem te beijar'
e assim
você vai sentir
o
que
é bom.

( das coisas boas da vida)

Eu tenho um pássaro azul, que vez ou outra, me sangra os lábios. Com
um beijo de canto de boca.

Balangandans


As orelhas brincam seus brincos enquanto ouvem o vento sussurrar:
'quem é você, mulher?'
O que Ela responde faz o vento virar sopro.

Só.

Um canto

Meu silêncio fotografado forma com nitidez cega o meu perfil. Por fim.
Se eu soubesse onde esta o meu começo não me perderia tanto. Não. É
isso. Perder o fio da meada, Ariadne.
Dourada e triste.

(Da linha com dedicatória da testa até o queixo açude de lágrimas, a
estrada do meu silêncio que te fere e completa.)

Eles dois. Al mas, corpos.

Ela resolveu escrever, ele fumar um cigarro. Eram sempre assim
uníssonos-ambíguos-amantes. Não entendiam pois se entendiam demais. A
mais, sempre a mais.
'Eu te amo demais' ele dizia enquanto ela chorava o sal por dentro.
Cicatrizes queimando com o que da boca dele se fazia amor. Ele bebia
suas lágrimas por que gostava e não por que tinha sede. Ele tinha
calma que só ela sabia achar. No meio da nicotina.
'Vou começar a malhar' , ela dizia enquanto ele fumava um outro
sorriso. À noite dormiam um único sono esperando o dia de não mais
acordar.
A- cor -dar.

Ar.


'Os paralelos se encontram no infinito' C.F.A.

Modular

Escritura apagada
Sou tua transgressora
aquela que Tudo exige
Treme

Treme em mim, sopro
Cava escava abrasa
Tenho fama, pitonisa
e uma certa fundura das águas

O tempo chegou e já não estou
banhada em vemelho

Toco agora a Palavra do teu fôlego.

In estante

Somos minutos juntos
segundos grudados
Horas suadas


Somos a volta completa
do relógio.

Silêncio

Aspira teu sopro. E o meu também.
Faz disso o rito sagrado


Da respiração

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Flama

Abençoada trajetória
deste tempo lunar
que me queima

De tão grande fogo
lúmina altura quente
Atingi

O que desejas, mulher?

- Nunca apagar.

Do falar

Falar para expor a tessitura do viver.

Algo de vital.


O que acontece ao falar é o alcance. Alcançar o hiato do silêncio.
Amo quando atinjo e o silêncio brupto se faz.

Fios da oralidade, noites de Sherazade.

Luz-alabastro

O que dirão os que vierem depois de mim?


Palavras e espaços que me captam. Intervalos de insatisfação suja.
De mil palavras eu me feri. Voragens de ágata.
Sei que posso mais e a mim mesma machuco.
Outros irão ferir e amar.

Por enquanto estou só.


Absorta em luz.

Atrás do enigma

Não se pode entender a maldição que cada verso possui.
Desfrute de um amante forte que traz lascivo a língua-palavra
E esse verso que cai sobre a minha boca. Recai. Haicai.

Mandarim.

Das coisas do lá de fora



Transpor teus muros
Pecar tuas heras
De séculos e séculos
De procura


Romper teus musgos
Crestar tuas veias
Das lágrimas e teias
Poeira em poeira


Abrir tua casa escura
Cheia de suor e solidão


Tosquiar teu pensamento
Tocar tua lã

Água-me

Lava-me
Água
Lava-me



O ventre, as ancas
Cintura e delta
E as cheias
Fartas

Fonte descuidada
Altivez de gotas
Meu existir líquido



Quente textura de um rochedo



Lançam as águas,
Sobre mim, o sopro
Cobrem-me de recuos
De rios


Sou pedra e móvel
Etérea, imperfeita
Raízes fundas que tocam
As fontes



Bebe-me água
Respira meu sangue
O meu leite da carne
Transborda


Ao teu fluxo
Me estendo
Percorro encantada
Escorrendo


Lava-me

Uma carta

O que te escrevo é um resgate. Não tem ínício nem muito menos fim. É
vertiginoso, espectral.
Sente? Palavras não me saciam. Alguém me explica essa sede tamanha. No
entanto, amor, entendi. E eu sei, o que eu amo aqui. Sei bem. Estou
sentindo. Yes, amor, Vida.

Uma mulher com meus princípios, ininteligível.

Sei que o evolar dessa liberdade te atinge. Ai de mim, sempre em mim.
Meu bem, estou feliz. Simples, estou simples. Simplicidade que vem dos
mares, das águas e dos céus. Não posso viver menos e me defendo da
morte. Você sabe da minha busca. E das minhas quedas. Ela cai,
levanta, cai. Cai de novo. Levanta. Ela errava tanto.





Eu te escrevo, porque assim posso descansar.

Do procurar









A saliva e as mágoas
Da tua pensada língua
Os lábios e seus cuidados
Fugidios dentes de marfim

Descontinuum sentires
Sensualidade casta e pagã
Teu degredo, teu vazio
Da tua velada fome

Adentro-me em róseas fendas
Caio em alongadas grandezas
Da carne

Dependo do liso e das trilhas
Façanhas exatas, gastas
Teus espaços ocos
Quereres de um escuro

Assim, incorporo a ti
Foice do Nada
Sou agora rastro carmesim
Uma mulher que aspira

Buscando na tua boca, a mim

Júbilo

Errei a porta, o fluxo do sangue pulsa sentimento perdido.O último
suspiro, tantas vezes dado. Morri. Daqui posso ver grande e tudo
morreu.


Volta amanhã, vida.

Nuvens




Estou experimentando o cinza. Nunca gostei dessa cor. Gosto muito do
prata e do seu brilho de metal frio mas do cinza eu sempre fugi.
Evitava sustentar o olhar com aquela cor que ousava ser chumbo. Peso.
Intervalo. O cinza é o intervalo da cor. De uma cor a outra lá esta
ele, audaz, o cinza. Grande vontade de acréscimo e continua lá, nu, o
cinza. Ele é tediosamente nu.
Eu estou cinza ou, suportando ser cinza. Ah, não se enganem com
aquelas pessoas que dizem:' Eu gosto do cinza!'. São as que mais lutam
com a nudez.
É certo que isso é cultural, as tribos nunca usaram essa cor
repugnante pra expressar nada. Talvez soubessem do segredo que deve se
manter intacto. Só que agora eu quero. Quero o meu segredo.


Vou me despir.


O cinza é uma violentação extrema.

Dentro do coração selvagem




Uma hora e vinte minutos de fila. Em pé. Um prazer abissal tomava-me.
Em pouco tempo estaria lá, diante dEla. A chuva caía
ininterruptamente, suave. Uma multidão. Sim, uma multidão ali, em pé,
na chuva. Quem eram aquelas pessoas?


Olhei atentamente os rostos, sérios, quietos e molhados. Rostos que
sabiam, estariam diante dEla. Muitos estudantes, jovens, virgens ainda
de sonhos, alegria que doía. Gente, muita gente.


Epifania.


Em breve, pensei, seria Macabéa, ouvindo pela primeira vez Caruso
cantando "Uma furtiva lágrima". Luxo da alma.


São Paulo estava se mostrando como era, garoava a sua 'cidadice', e
frio. Ah, que friozinho. Meu cabelo já estava começando a ficar
molhado, escorriam-me algumas gotas pelo rosto, optei pela compra de
um guarda-chuva. Eram vendidos aos montes, capas de chuva também. Mas,
a capa era uma pele e eu já tinha a minha que precisava ficar exposta,
crua. Comprei. Gente simples. Um guarda-chuva simples. Protetor e bom
, como toda gente simples. Senti vontade de abraçá-lo, mostrar minha
gratidão mas, guarda-chuva não se permite abraçar, não tem pretensão
de ser gente. É coisa, modestamente coisa.


Mesmo grande, a fila fluiu e logo estava diante de um elevador grande,
onde entraram comigo as pessoas sérias. Olhos baixos, sem a ousadia de
olhar um outro olhar baixo. Quem eram aquelas pessoas?


O moço que conduzia o elevador estava devidamente trajado como um
elegante funcionário do Museu.


-Museu da Língua Portuguesa, ele dizia orgulhoso. Falava em tom de
nobreza. Nobreza que só gente simples tem.


Entrei.


Não, não estou tentando escrever bem, estou tentando procurar maneiras
de dizer. E preciso falar logo, antes que me torne enigmática demais.




-Primeiro andar, Clarice Lispector.




Estranhamente o nobre do elevador disse isso olhando nos meus olhos.
Frêmito. Em poucos segundos estaria diante, em frente, ali. Ó Deus, ai
que benção! Ai que benção! Ai que benção!




Abriu.




As pessoas saíram e pude então ver. Fotos gigantescas. Textos, por
sobre as fotos. Encaixes perfeitos sobrepostos, o mistério e o enigma.
Que mistérios tem Clarice? Ela me é insustentável e toda carregada de
afeto. Assim, ela me é. Nessa massa informe que é a sociedade, a obra
dEla é comovente. É. Comovente. Frases atordoantes se casavam com as
fotografias. Frases que eu tenho decoradas me atingiram como
relâmpagos que subitamente espocavam.


Ai, ai de mim. Puta que o pariu Clarice, puta que o pariu.


Mais à frente , em um corredor até que estreito, as pessoas...muitas
pessoas, num silêncio de gado apascentado que a qualquer momento
estoura a cerca, andavam, naquele corredor. Bem, o corredor. Nele
havia vários monitores que mostravam a imagem de outras pessoas lendo,
em voz alta, obras dEla. Sentei e ouvi. Só. Ambientação intimista e
pessoas falando por Ela. Estremeci.


Quem eram aquelas pessoas?


No final do corredor, as tão faladas gavetas, onde algumas se abrem,
outras não e outras ainda permanecem semi-abertas. Revelação,
mistério, enigma. Outra vez. Ousei, cheguei abrindo de súbito, se
parasse talvez não abriria. Cartas, notas, manuscritos, recortes e
documentos da sua vida profissional e pessoal. Originais!... Ar...
falta de ar... Não se via a preocupação de explicar a sua obra ou as
suas influências, o que tinha ali era Ela. "Não se perde por não
entender". Não, Clarice... não se perde, obrigada. Sonhei provocar um
sorriso. Sucedeu que então não mais me contive: comecei a tocar as
fotos, os textos, as palavras, o caminho de Tchetchelnik ...


Eis-me, por um momento acreditando na salvação humana. As pessoas,
sérias, molhadas e quietas.
Quem eram aquelas pessoas?


Sofri um ligeiro sobressalto e só então percebi. Passei a mão nos
cabelos louros numa tentativa de pentear o espanto.




Aquelas pessoas eram 'eu'

Meus morcegos





Hoje, estou num dia "desses". Um dia em que insisto em me encontrar.
Já tentei de todas as formas evitar esse encontro, nada. Nada evita,
em qualquer lugar que eu entre, lá estou, me vejo. Estou me
perseguindo desesperadamente. Uma ânsia única e voraz que me consome.


Lembrei-me dos cálidos morcegos cegos.
Os morcegos se escondem nos telhados escuros. São cegos, imaginem,
nada poder ver. À noite, se recolhem ritualisticamante nos telhados,
escondidos da vida. Mas onde se escondem os homens? Onde me escondo? A
óptica de um morcego-homem, transmutada. Eu.
Vivo voando a vida inteira no escuro, chocando-me contra as paredes
brancas do amor. Dói. O choque.
Estes morcegos chupam o nosso sangue.
Já busquei meu travesseiro, deitei nele minha vida ofendida.
É.
Acho melhor eu conservar os meus morcegos entre minhas paredes, debatendo-se
cegos.
Cegos como nós.

Seguidores

Quem sou eu

Minha foto
O desconexo me elucida. Sinto um prazer de sábado quando sinto o aroma da loucura. Sei que não é fácil. Sei. Às vezes eu queria não saber e ter a benção da lucidez. No entanto eis-me aqui, forjada, leoa, musa de fogo. Ouro, olhar, branco, bracelete, unha vermelha.